O Racismo de Ontem e o de Hoje no futebol brasileiro.
2º tempo – brasileiros, pobres e pretos vão entrar em campo. Sorry.
Era o momento que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se
para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó-de-arroz,
ficando quase cinzento. não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O
cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de
tanto pó-de-arroz.
“O field
está repleto, como sempre, de moças da sociedade. Naquela época representava as
moças de famílias burguesas. O refree, do chapelão panamá, já trila o apito. Na
porta dos vestiários, já se ouve o riscado impaciente das travas no chão de
cimento. Carlos Alberto sente o coração palpitar,
parece que vai sair pela boca. É a hora que mais teme. Corre pela última vez ao
espelho e tome nova camada de pó-de-arroz! Retira cuidadosamente a gorra de
meia – o cabelo duro assentado em escadinha até o cocoruto. Está pronto, os
companheiros são compreensivos com ele, até ajudam na maquiagem. O team adentra
no gramado. Correm...até a arquibancada. Hip, hip, hurra! Carlos Alberto está
quase feliz. Ninguém o xingou até aqui. Será que escapa dessa vez? De repente –
ele já se preparava para bater bola (aquecer) – o grito da geral trespassa-lhe
o coração: “Pó-de-arroz!”
Rio de Janeiro, Campo do
Fluminense, 1912.
Nesta fase branca e inglesa
do nosso futebol já se poderiam notar os germes que acabariam com ela. O povo
sempre arrumava um jeitinho na geral ou de participar atrás dos muros quando a
bola os transpunha, chutes e embaixadinhas para se divertirem. Resultado: vinte
anos depois estava lotado de times pobres; e mesmo os ricos enxameavam de
jogadores humildes. Nos dois casos, a
moçada tratava de imitar os grã-finos (ricos), em todos os sentidos, desde a
maneira de jogar até a aparência externa. Quem era pobre e varzeano (jogador de
campo de várzea), como Carlos Alberto, tratava de virar branco e elegante.
Clubes de esquina começaram
a surgir em todo país. O mais famoso deles foi o Corinthians Paulista, uma
imitação do Corinthians inglês que em 1910, excursionou na América do Sul e
aqui goleou todos clubes burgueses, Paulistano tomou de 7 e o Fluminense de 8 a
1. A turma da geral “corja fedorenta”, que espiava por detrás dos muros,
adorou. Foi assim que surgiu o Corinthians Paulista, no Bom Retiro, com
iniciativa de um grupo de artesãos e operários. Logo ao lado dos grã-finos S.P. Athetic e do The S. P.
Railway, havia, agora, um time do povo. Depois, o Vasco, Internacional,
Atlético, Santa Cruz... luta de classes.
Os times brancos e ricos
trataram de reagir à proliferação dos
pobres, primeiro com a indiferença, ricos jogavam entre si apenas. Em
seguida, já eram tantos que fora preciso organizá-los em associações, precursores
das ligas atuais, a tentativa de seccionar: os times mais antigos, burguesões,
numa associação; os mais novos, proletários, noutra.
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Carlos Alberto, negro e perseguido pela torcida
do América FC do Rio de Janeiro |
Com a invasão da plebe,
muito admirador do “esporte bretão” deixou de sê-lo. Moças da sociedade já não
concorriam mais aos fiels, estudantes
retornavam aos esportes elitizados, os jornais acusavam o futebol quanto à sua violência
e descortesia. Notava-se, agora, que ele atraía sujeitos sem eira nem beira. Com
a fuga da “gente fina”, os grandes clubes começaram a ter dificuldades em
organizar suas equipes. Sem falar que muito inglês, nobres, retornava à terra
sem deixar substituto.
Vários clubes fecharam seus
departamentos de futebol. Não tinha graça inglês apanhar de preto. Os que continuaram tiveram que resolver
como fariam com os desfalques. Os moleques
e malandros e não trabalhadores estavam ali mesmo pronto para isso, naquela
época futebol rendia favores e não dinheiro. Os clubes tiveram critérios para
selecionar esse tipo de gente, não podia
ser preto, naturamente e nem procurado pela polícia. Mulatos serviam, desde
que fossem excepcionais com a bola no pé (e, como o célebre Carlos Alberto,
pudessem enbranquecer com banhos de pó-de-arroz). Ah! Uma coisa importante:
tinham de jogar à europeia, repetindo os movimentos e jogadas ensaiadas pelos
folhetos ingleses que se vendiam junto com o material do jogo.
Foi aí que surgiu um craque
mulato chamado Friedenreich... depois eu conto sobre ele.
Referência:
DOS SANTOS,
Joel Rufino História Política do Futebol Brasileiro. São Paulo:
Brasiliense,
1981.