sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ensino de Futebol


“Quando o cara é da rua, não tem o preparo técnico, ele tem a chance de ser muito mais único, muito mais brasileiro, do que aquele que recebe a escolinha e o treinamento parecidos com o modelo europeu, americano e australiano.”
(Dan Stulbach – Ator, diretor e apresentador)

Entender o futebol não significa apenas entender a técnica, os fundamentos, os gestos isolados, ou mesmo as táticas aplicadas ao jogo.
É preciso compreender que por trás do atleta há sempre um ser humano, sensível, emotivo, que chora, que ri, que sente dores e tem, enfim, necessidades biológicas, psicológicas, sociais e espirituais.
Acreditar que continuaremos produzindo espontaneamente os atletas talentosos – os camisas 10 – em quantidade como antigamente, é um erro estratégico para a manutenção da nossa hegemonia no cenário mundial da bola.
Foram se os tempos em que os campinhos improvisados nas ruas, várzeas e praias eram em maior número do que as escolinhas de futebol.
A maneira espontânea de se aprender a jogar bola foi substituída pela mecanização dos gestos e técnicas, criando-se barreiras e limitações para esse desenvolvimento.
Foi desse aprendizado natural e pouco sistematizado que ‘brotaram’ nossos craques e que mais tarde acabariam por fascinar o mundo com a nossa maneira artística, criativa e lúdica dentro das quatro linhas.
Cabem aos nossos professores e pedagogos, que acompanham a evolução e as tendências da Pedagogia do Esporte, uma sistematização deste processo, numa metodologia capaz de compreender a nossa essência, além das nuances do jogo e do ser humano.
Uma metodologia do genuíno futebol brasileiro.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Racismo de Ontem e o de Hoje no futebol brasileiro.

2º tempo – brasileiros, pobres e pretos vão entrar em campo. Sorry.


Era o momento que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó-de-arroz.

“O field está repleto, como sempre, de moças da sociedade. Naquela época representava as moças de famílias burguesas. O refree, do chapelão panamá, já trila o apito. Na porta dos vestiários, já se ouve o riscado impaciente das travas no chão de cimento. Carlos Alberto[1] sente o coração palpitar, parece que vai sair pela boca. É a hora que mais teme. Corre pela última vez ao espelho e tome nova camada de pó-de-arroz! Retira cuidadosamente a gorra de meia – o cabelo duro assentado em escadinha até o cocoruto. Está pronto, os companheiros são compreensivos com ele, até ajudam na maquiagem. O team adentra no gramado. Correm...até a arquibancada. Hip, hip, hurra! Carlos Alberto está quase feliz. Ninguém o xingou até aqui. Será que escapa dessa vez? De repente – ele já se preparava para bater bola (aquecer) – o grito da geral trespassa-lhe o coração: “Pó-de-arroz!”
Rio de Janeiro, Campo do Fluminense, 1912.

Nesta fase branca e inglesa do nosso futebol já se poderiam notar os germes que acabariam com ela. O povo sempre arrumava um jeitinho na geral ou de participar atrás dos muros quando a bola os transpunha, chutes e embaixadinhas para se divertirem. Resultado: vinte anos depois estava lotado de times pobres; e mesmo os ricos enxameavam de jogadores humildes. Nos dois casos, a moçada tratava de imitar os grã-finos (ricos), em todos os sentidos, desde a maneira de jogar até a aparência externa. Quem era pobre e varzeano (jogador de campo de várzea), como Carlos Alberto, tratava de virar branco e elegante.
Clubes de esquina começaram a surgir em todo país. O mais famoso deles foi o Corinthians Paulista, uma imitação do Corinthians inglês que em 1910, excursionou na América do Sul e aqui goleou todos clubes burgueses, Paulistano tomou de 7 e o Fluminense de 8 a 1. A turma da geral “corja fedorenta”, que espiava por detrás dos muros, adorou. Foi assim que surgiu o Corinthians Paulista, no Bom Retiro, com iniciativa de um grupo de artesãos e operários. Logo ao lado dos grã-finos S.P. Athetic e do The S. P. Railway, havia, agora, um time do povo. Depois, o Vasco, Internacional, Atlético, Santa Cruz... luta de classes.
Os times brancos e ricos trataram de reagir à proliferação dos pobres, primeiro com a indiferença, ricos jogavam entre si apenas. Em seguida, já eram tantos que fora preciso organizá-los em associações, precursores das ligas atuais, a tentativa de seccionar: os times mais antigos, burguesões, numa associação; os mais novos, proletários, noutra.
Carlos Alberto, negro e perseguido pela torcida
do América FC do Rio de Janeiro
Com a invasão da plebe, muito admirador do “esporte bretão” deixou de sê-lo. Moças da sociedade já não concorriam mais aos fiels, estudantes retornavam aos esportes elitizados, os jornais acusavam o futebol quanto à sua violência e descortesia. Notava-se, agora, que ele atraía sujeitos sem eira nem beira. Com a fuga da “gente fina”, os grandes clubes começaram a ter dificuldades em organizar suas equipes. Sem falar que muito inglês, nobres, retornava à terra sem deixar substituto.
Vários clubes fecharam seus departamentos de futebol. Não tinha graça inglês apanhar de preto. Os que continuaram tiveram que resolver como fariam com os desfalques. Os moleques e malandros e não trabalhadores estavam ali mesmo pronto para isso, naquela época futebol rendia favores e não dinheiro. Os clubes tiveram critérios para selecionar esse tipo de gente, não podia ser preto, naturamente e nem procurado pela polícia. Mulatos serviam, desde que fossem excepcionais com a bola no pé (e, como o célebre Carlos Alberto, pudessem enbranquecer com banhos de pó-de-arroz). Ah! Uma coisa importante: tinham de jogar à europeia, repetindo os movimentos e jogadas ensaiadas pelos folhetos ingleses que se vendiam junto com o material do jogo.
Foi aí que surgiu um craque mulato chamado Friedenreich... depois eu conto sobre ele.

Referência: 
DOS SANTOS, Joel Rufino História Política do Futebol Brasileiro. São Paulo:
Brasiliense, 1981.






[1] Carlos Alberto, um dos atletas oriundos do América, era um jogador muito habilidoso, mas que não dispunha das características quase que obrigatórias para os padrões tricolores da época: ser branco, de família tradicional e educado. Mulato e de origem humilde, Carlos Alberto ganhou espaço no 1º quadro tricolor pelo seu bom futebol. Mas tinha receio da reação da torcida no tocante a sua cor. Por isso, teve a idéia de passar pó-de-arroz pelo corpo para tentar disfarçá-la.