Educação Física, a História que se Conta
Este blog parte das experiências do autor em escolas/universidades, traduz suas críticas e visões teóricas-práticas como aluno-professor sobre diversos pontos de inquietude da e na Educação Física Escolar, busca uma colaboração para que os estudantes, futuros e já profissionais (re)pensem sobre a educação física escolar e o seu contexto pautado para a formação de um ser humano crítico-emancipatório
quinta-feira, 5 de novembro de 2015
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Ensino de Futebol
“Quando o cara é da rua, não tem o preparo técnico, ele tem a chance de ser muito mais único, muito mais brasileiro, do que aquele que recebe a escolinha e o treinamento parecidos com o modelo europeu, americano e australiano.”(Dan Stulbach – Ator, diretor e apresentador)
Entender o futebol não significa apenas entender a técnica, os fundamentos, os gestos isolados, ou mesmo as táticas aplicadas ao jogo.
É preciso compreender que por trás do atleta há sempre um ser humano, sensível, emotivo, que chora, que ri, que sente dores e tem, enfim, necessidades biológicas, psicológicas, sociais e espirituais.
Acreditar que continuaremos produzindo espontaneamente os atletas talentosos – os camisas 10 – em quantidade como antigamente, é um erro estratégico para a manutenção da nossa hegemonia no cenário mundial da bola.
Foram se os tempos em que os campinhos improvisados nas ruas, várzeas e praias eram em maior número do que as escolinhas de futebol.
A maneira espontânea de se aprender a jogar bola foi substituída pela mecanização dos gestos e técnicas, criando-se barreiras e limitações para esse desenvolvimento.
Foi desse aprendizado natural e pouco sistematizado que ‘brotaram’ nossos craques e que mais tarde acabariam por fascinar o mundo com a nossa maneira artística, criativa e lúdica dentro das quatro linhas.
Cabem aos nossos professores e pedagogos, que acompanham a evolução e as tendências da Pedagogia do Esporte, uma sistematização deste processo, numa metodologia capaz de compreender a nossa essência, além das nuances do jogo e do ser humano.
Uma metodologia do genuíno futebol brasileiro.
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
O Racismo de Ontem e o de Hoje no futebol brasileiro.
2º tempo – brasileiros, pobres e pretos vão entrar em campo. Sorry.
Era o momento que Carlos Alberto mais temia. Preparava-se para ele, por isso mesmo, cuidadosamente, enchendo a cara de pó-de-arroz, ficando quase cinzento. não podia enganar ninguém, chamava até mais atenção. O cabelo de escadinha ficava mais escadinha, emoldurando o rosto, cinzento de tanto pó-de-arroz.
“O field
está repleto, como sempre, de moças da sociedade. Naquela época representava as
moças de famílias burguesas. O refree, do chapelão panamá, já trila o apito. Na
porta dos vestiários, já se ouve o riscado impaciente das travas no chão de
cimento. Carlos Alberto[1] sente o coração palpitar,
parece que vai sair pela boca. É a hora que mais teme. Corre pela última vez ao
espelho e tome nova camada de pó-de-arroz! Retira cuidadosamente a gorra de
meia – o cabelo duro assentado em escadinha até o cocoruto. Está pronto, os
companheiros são compreensivos com ele, até ajudam na maquiagem. O team adentra
no gramado. Correm...até a arquibancada. Hip, hip, hurra! Carlos Alberto está
quase feliz. Ninguém o xingou até aqui. Será que escapa dessa vez? De repente –
ele já se preparava para bater bola (aquecer) – o grito da geral trespassa-lhe
o coração: “Pó-de-arroz!”
Rio de Janeiro, Campo do
Fluminense, 1912.
Nesta fase branca e inglesa
do nosso futebol já se poderiam notar os germes que acabariam com ela. O povo
sempre arrumava um jeitinho na geral ou de participar atrás dos muros quando a
bola os transpunha, chutes e embaixadinhas para se divertirem. Resultado: vinte
anos depois estava lotado de times pobres; e mesmo os ricos enxameavam de
jogadores humildes. Nos dois casos, a
moçada tratava de imitar os grã-finos (ricos), em todos os sentidos, desde a
maneira de jogar até a aparência externa. Quem era pobre e varzeano (jogador de
campo de várzea), como Carlos Alberto, tratava de virar branco e elegante.
Clubes de esquina começaram
a surgir em todo país. O mais famoso deles foi o Corinthians Paulista, uma
imitação do Corinthians inglês que em 1910, excursionou na América do Sul e
aqui goleou todos clubes burgueses, Paulistano tomou de 7 e o Fluminense de 8 a
1. A turma da geral “corja fedorenta”, que espiava por detrás dos muros,
adorou. Foi assim que surgiu o Corinthians Paulista, no Bom Retiro, com
iniciativa de um grupo de artesãos e operários. Logo ao lado dos grã-finos S.P. Athetic e do The S. P.
Railway, havia, agora, um time do povo. Depois, o Vasco, Internacional,
Atlético, Santa Cruz... luta de classes.
Os times brancos e ricos
trataram de reagir à proliferação dos
pobres, primeiro com a indiferença, ricos jogavam entre si apenas. Em
seguida, já eram tantos que fora preciso organizá-los em associações, precursores
das ligas atuais, a tentativa de seccionar: os times mais antigos, burguesões,
numa associação; os mais novos, proletários, noutra.
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| Carlos Alberto, negro e perseguido pela torcida do América FC do Rio de Janeiro |
Com a invasão da plebe,
muito admirador do “esporte bretão” deixou de sê-lo. Moças da sociedade já não
concorriam mais aos fiels, estudantes
retornavam aos esportes elitizados, os jornais acusavam o futebol quanto à sua violência
e descortesia. Notava-se, agora, que ele atraía sujeitos sem eira nem beira. Com
a fuga da “gente fina”, os grandes clubes começaram a ter dificuldades em
organizar suas equipes. Sem falar que muito inglês, nobres, retornava à terra
sem deixar substituto.
Vários clubes fecharam seus
departamentos de futebol. Não tinha graça inglês apanhar de preto. Os que continuaram tiveram que resolver
como fariam com os desfalques. Os moleques
e malandros e não trabalhadores estavam ali mesmo pronto para isso, naquela
época futebol rendia favores e não dinheiro. Os clubes tiveram critérios para
selecionar esse tipo de gente, não podia
ser preto, naturamente e nem procurado pela polícia. Mulatos serviam, desde
que fossem excepcionais com a bola no pé (e, como o célebre Carlos Alberto,
pudessem enbranquecer com banhos de pó-de-arroz). Ah! Uma coisa importante:
tinham de jogar à europeia, repetindo os movimentos e jogadas ensaiadas pelos
folhetos ingleses que se vendiam junto com o material do jogo.
Foi aí que surgiu um craque
mulato chamado Friedenreich... depois eu conto sobre ele.
Referência:
DOS SANTOS,
Joel Rufino História Política do Futebol Brasileiro. São Paulo:
Brasiliense,
1981.
[1] Carlos Alberto, um dos atletas oriundos do
América, era um jogador muito habilidoso, mas que não dispunha das
características quase que obrigatórias para os padrões tricolores da época: ser
branco, de família tradicional e educado. Mulato e de origem humilde, Carlos
Alberto ganhou espaço no 1º quadro tricolor pelo seu bom futebol. Mas tinha
receio da reação da torcida no tocante a sua cor. Por isso, teve a idéia de
passar pó-de-arroz pelo corpo para tentar disfarçá-la.
domingo, 31 de agosto de 2014
O Racismo de Ontem e o de Hoje no futebol brasileiro.
1º tempo – A burguesia do futebol.
Diversos foram os sociólogos que costumavam lembrar que “futebol é
jogo de pobre” e que, no fim do
séc. XIX, algum esporte deveria substituir a capoeira que a polícia proibia...
Um certo psicólogo escreveu “o futebol é a desforra do povo contra os donos da
vida”. Como quer que seja, tudo começou em outubro de 1894, quando um jovem
paulista, filho de ingleses ricos, desembarcou na Estação da Luz com duas bolas
de couro Shoot na bagagem: Charles
William Miller, o introdutor do futebol no
país.
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| Torcedora do Grêmio grita "Macaco" para o goleiro Aranha do Santos F.C., mais um caso de injúria racial no Brasil (08/2014) |
Pelos dez anos seguintes, continuou como jogo inglês elitizado:
seus praticantes eram, na sua grande maioria, técnicos industriais e
engenheiros ingleses. Palavras costumeiras: fiel,
full-back, inside-right, referee, linesman dentre outras. Até 1930, o
ofensor que machucasse um outro jogador deveria fazer um pedido sincero de
desculpas: I’m sorry.
Paralelamente o cricket
inglês e o squash, dominavam o espaço
esportivo para brancos burgueses em diversas cidades brasileiras. Mas, Miller
que não gostava tomou a iniciativa de fundar o primeiro team de foot-ball do
Brasil, o São Paulo Athletic Club. Em 1902 surgiu, no Rio, o Fluminense; em
1903, o Fuss-Ball-Club de Porto Alegre e o Grêmio Foot-Ball, no Rio Grande
do Sul e outros clubes foram surgindo.
Moças loiras e perfumadas na assistência. Jogadores
impecáveis nos seus calções e meias importados.
No final, o vencedor cantando, com hálito de whisky, o tradicional “when
more we drink together, more friends we be”.
Os pobres, aqueles sem dinheiro para o ingresso e uniformes,
espiavam por cima dos muros. E aqueles que conseguiam pagar se sentiam intrusos,
pois os craques, ao saldarem a torcida, nunca se dirigiam a eles e, sim a
seleta massa na arquibancada. Moças e rapazes de boa família. Era o tempo em
que os intelectuais ainda gostavam de futebol e comparavam, em artigos
derramados e versos eloquentes, os jogadores a deuses gregos, os estádios ao
Olimpo.
Estamos no intervalo histórico do futebol brasileiro...
Continuarei o segundo tempo:
Brasileiros, pobres e pretos vão entrar em campo. Sorry.
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
"Rolar Bola" para quem? Uma prática poluente ultrapassada nas escolas
Dos anos 80 para os dias atuais muita coisa mudou. Os avanços tecnológicos nos trouxeram benefícios inigualáveis; diversas áreas de conhecimentos aprofundaram suas pesquisas técnicas-cientificas. Momentaneamente, gostaria de convidar o leitor a analisar as práticas escolares de ontem e as de hoje nas escolas, especialmente nas escolas públicas, não que seja muito diferente do quadro atual de diversas escolas particulares espalhadas pelo país.
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| Brincadeiras de Roda |
Paremos por um instante e observamos o que realmente acontece nas diversas escolas de nosso país. Indagamos: É essa a educação física escolar que promove a melhoria da qualidade de vida do ser humano? O que mudou da década de 80 para a atualidade?
As novas/velhas ordens são: "peguem a bola, escolham seus times, e joguem"; "não me perturbem"; "se brigarem estão fora" dentre tantas outras frases que já são costumes nesse momento escolar.
Em um comparativo, é fundamental analisar que historicamente a Educação Física da década de 80 trazia consigo todo aparato da formação do ser voltado para servir à Pátria. Ainda havia uma ideologia como pano de fundo para legitimar o sobrepujar do mais forte sobre o fraco. A questão do gênero era outro ponto a se considerar. Afinal, meninos jogam com meninos e as meninas se tiverem oportunidade jogam entre elas, pode ser voleibol ou queimada, mas de preferência queimada, pois dá menos trabalho. E hoje, qual o pano de fundo?
Os fatos marcantes deixam seus resquícios na atualidade, se faz necessário refletir sobre o simples ato "didático" de "rolar a bola".
A quem agrada?
O que se espera construir com essa prática?
Até quando a escola pública ou particular vai permanecer infestada desses professores descompromissados?
São indivíduos estagnados no tempo; apoiados no método do apito; silenciadores de anseios e vontades; colaboradores de perpetuarem paradigmas que não deveriam existir. Se torna uma necessidade despoluir o sistema e as pessoas que deveriam ser responsáveis em realmente formar cidadãos para a vida. O ato de "rolar bola" é dissociado de qualquer pensamento construtivo, pois "correr por correr" atrás da bola é um modo simplista de conceber a educação física escolar, dispenso comentários sobre a sociabilidade ponto crucial para a preparação para a vida.
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